Tempo estimado de leitura: 5 minutos

Amanhã é o dia de votar

escrito por Adriel em

Urna eletrônica brasileira durante a inicialização, com mensagens do sistema na tela à esquerda e o teclado à direita
Vinicius Depizzol / Fonte / CC BY-SA 4.0

Amanhã ocorrem as eleições e me veio uma curiosidade sobre uma tecnologia que usamos há algumas décadas. Como funciona, de forma simplificada, a arquitetura das urnas eletrônicas brasileiras?

Antes das urnas, parte do processo eleitoral já começava a ser informatizada. Em 1985, a Justiça Eleitoral iniciou o recadastramento que daria origem ao cadastro nacional informatizado de eleitores.

O projeto da urna eletrônica começou a tomar forma dez anos depois e, em 1996, foi utilizado pela primeira vez em uma eleição, alcançando cerca de 32 milhões de eleitores. Em 2000, a votação eletrônica já estava presente em todo o país.

Desde então, o funcionamento das urnas também passou a fazer parte de discussões públicas sobre segurança e auditoria. Uma delas ganhou bastante espaço em 2021 com a PEC do voto impresso, que propunha a criação de um registro físico que pudesse ser conferido sem que o eleitor tivesse contato com o papel.

Curiosamente, algo parecido já havia sido experimentado nas eleições de 2002, quando parte das urnas recebeu um módulo de impressão. A experiência não continuou nos anos seguintes.

As urnas são realmente seguras?

Antes mesmo das eleições, os programas que serão utilizados nas urnas e em outras etapas do processo eleitoral passam por uma cerimônia de assinatura digital e lacração. Entre eles estão tanto o software executado na própria urna quanto sistemas responsáveis pela preparação, transmissão e totalização dos resultados.

A urna não possui Wi-Fi, Bluetooth ou interface de rede, ou seja, ela permanece isolada do mundo externo. Durante a votação, os votos são registrados localmente e, quando a votação é encerrada, a própria urna apura o resultado daquela seção.

Ao final, a urna gera o Boletim de Urna com esses resultados. O arquivo é assinado digitalmente e criptografado antes de seguir para as próximas etapas. A assinatura permite verificar sua origem e integridade, enquanto a criptografia mantém seu conteúdo protegido durante esse processo.

Quando o boletim chega ao sistema de totalização, sua assinatura é verificada e os dados são decriptografados para que possam ser lidos e processados.

Eleitor
   ↓
┌───────────────┐
│     URNA      │  ← offline
│               │
│ registra votos│
│ apura seção   │
└───────┬───────┘
        │
        │ fim da votação
        ↓
   Boletim de Urna (BU)
        │
        ├──→ impresso na seção
        │
        └──→ mídia de resultado
                  │
                  │ retirada fisicamente
                  ↓
          computador de transmissão
                  │
                  │ rede
                  ↓
        Justiça Eleitoral / TSE
                  │
                  ↓
             totalização

A logística para o transporte e a transmissão da mídia de resultado é definida pelo juízo eleitoral de acordo com as condições de cada região. É por isso que o caminho desses dados pode variar bastante pelo país.

Nas eleições de 2026, esse processo de transmissão contará com internet via satélite em algumas regiões de difícil acesso. No Maranhão, 66 locais de votação distribuídos em 22 municípios utilizarão Postos Avançados de Transmissão equipados com antenas Starlink Mini e notebooks.

O que pode causar certa confusão nessa solução é imaginar que a Starlink participa diretamente do sistema da urna. Na prática, ela funciona apenas como o meio pelo qual o notebook consegue acesso à internet. A partir dessa conexão entra outra tecnologia desenvolvida pela Justiça Eleitoral, o JE-Connect, responsável por estabelecer uma conexão segura com a rede privada da Justiça Eleitoral.

┌────────────┐
│    URNA    │
│  offline   │
└─────┬──────┘
      │ mídia física
      ▼
┌────────────┐
│  NOTEBOOK  │
│ JE-Connect │
└─────┬──────┘
      │ conexão local
      ▼
┌────────────┐
│  STARLINK  │
└─────┬──────┘
      │ satélite
      ▼
   INTERNET
      │
      │ VPN
      ▼
┌─────────────────────┐
│ Justiça Eleitoral   │
└─────────────────────┘

O uso da Starlink, portanto, não muda o isolamento da urna. A conexão com a internet aparece somente depois que a votação daquela seção já foi encerrada e o resultado apurado.

Como os votos são totalizados

No fim, o processo de computar os votos é mais simples do que pode parecer. Cada urna apura localmente o resultado da sua seção e gera um Boletim de Urna com esses números.

O que segue para a Justiça Eleitoral não é uma transmissão voto a voto, mas o resultado já consolidado daquela seção. A partir daí, os boletins recebidos são verificados e somados até formar a totalização de cada cargo.

Em outras palavras, uma eleição nacional começa com milhares de pequenas apurações locais que, aos poucos, são reunidas em um único resultado.

Encontrou desinformação sobre as eleições?

Informações falsas ou enganosas sobre urnas e o processo eleitoral podem ser denunciadas anonimamente pelo SIADE, canal oficial do TSE.

Fontes